Quanto cobrar em 2027? O imposto muda. Seu lucro não pode desaparecer.

Tributação| 30 de out de 2026
Quanto cobrar em 2027? O imposto muda. Seu lucro não pode desaparecer. - Meu Contador Online

Sua empresa pode vender mais e ganhar menos em 2027. Para evitar isso, a formação do preço precisa considerar custos, IBS e CBS, créditos e margem — antes de a proposta chegar ao cliente.

O empresário abriu o extrato e ficou olhando.

Havia dinheiro entrando. Havia cliente comprando. Havia gente trabalhando. O que não havia era sobra.

Conferiu de novo, como quem abre a geladeira pela segunda vez esperando que alguma coisa tenha aparecido.

Nada.

“Mas eu vendi tanto.”

Vendeu. E essa é uma das descobertas mais desconcertantes de quem empreende: faturamento é o que chega fazendo barulho. Resultado é o que fica depois que todo mundo vai embora.

O fornecedor leva a parte dele. O imposto, a sua. O banco não costuma esquecer o caminho. E o empresário, que abriu a empresa para construir alguma liberdade, às vezes termina o mês financiando o próprio cansaço.

Com a chegada de novas regras tributárias, essa conta merece atenção. Não porque toda empresa necessariamente pagará mais. Mas porque copiar o preço antigo, acrescentar um percentual ouvido por aí e torcer pelo melhor é um método de gestão que exige fé demais de uma calculadora.

Quanto cobrar em 2027, então?

O suficiente para cumprir o que você promete, pagar os custos da operação e preservar uma margem que sustente o negócio. Parece simples. O trabalho está em descobrir esse número — e saber o que ele inclui.

Preparado em 30 de outubro de 2026. Os exemplos deste artigo são hipotéticos e não representam alíquotas oficiais de 2027.

Primeiro, descubra o que você está chamando de preço

“Fica dez mil.”

Uma frase pequena. Capaz de abrigar um desacordo enorme.

Para quem vende, talvez sejam R$ 10 mil mais tributos. Para quem compra, talvez sejam R$ 10 mil com tudo incluído, entrega feita e um cafezinho de cortesia.

Se essa diferença só aparecer depois da assinatura, alguém vai pagar pela falta de clareza. Convém descobrir quem antes de enviar a proposta.

Separe três valores:

ValorO que significa
Preço-basePonto de partida da sua conta de formação de preço, cuja relação com a base fiscal precisa ser validada.
Total pago pelo clienteQuanto o comprador desembolsará nas condições apresentadas.
Contribuição da vendaQuanto resta depois dos custos e encargos considerados, para ajudar a pagar a estrutura e formar resultado.

Uma contribuição de R$ 2.000 equivale a 20% de R$ 10.000. Sobre R$ 11.000, os mesmos R$ 2.000 representam aproximadamente 18,18%.

O dinheiro é o mesmo. A base da porcentagem é que mudou. Antes de comparar margens, confira se as duas contas estão falando a mesma língua.

O regime tributário muda a forma de montar a conta

O Ministério da Fazenda explica a possibilidade de permanecer no Simples e apurar IBS e CBS pelo regime regular, modalidade conhecida como Simples híbrido. Nessa opção, as parcelas desses tributos deixam o DAS e passam à apuração própria.

Isso exige cuidado na planilha: não mantenha o DAS integral do cenário anterior e simplesmente acrescente uma segunda cobrança dos mesmos componentes. Também não considere que escolher o híbrido elimina os demais tributos do Simples.

A mesma orientação oficial informa que os valores de IBS e CBS recolhidos pelo regime regular não integrarão a receita bruta considerada para o Simples. Por isso, usar o total da proposta indiscriminadamente como base de todos os cálculos pode distorcer a comparação.

Peça ao contador o cenário aplicável ao seu CNPJ e à data da operação. Não transforme uma estimativa da tributação ao final da transição em percentual de reajuste para 2027.

O desconto sai depressa. A margem vai junto.

O cliente pede 5%.

Cinco por cento parece pouco. Cabe numa frase, num gesto, naquele “fecha comigo que eu facilito”.

Mas o desconto sai do preço inteiro. O efeito recai sobre a parte que sobraria.

Veja uma hipótese simples:

ComponenteSem descontoCom desconto de 5%
Preço-baseR$ 10.000R$ 9.500
Custos diretosR$ 6.800R$ 6.800
Encargos hipotéticos de 12% sobre o preço-baseR$ 1.200R$ 1.140
Contribuição da vendaR$ 2.000R$ 1.560

O preço caiu 5%. A contribuição caiu 22%.

O cliente economizou R$ 500. Sua empresa perdeu R$ 440 do que sobraria para pagar a estrutura e formar resultado.

Dar desconto pode fazer sentido. Pode trazer volume, antecipar recebimentos ou ajudar a ocupar uma capacidade que ficaria parada. Mas precisa ser uma escolha calculada.

Generosidade comercial também precisa de orçamento.

A calculadora não conhece sua coragem

Você conhece o esforço por trás da empresa. A calculadora, não.

Ela não sabe quantas noites você passou acordado. Não considera o orgulho de conquistar aquele cliente. Não arredonda a conta por respeito à sua história.

E é justamente por isso que vale ouvi-la.

Para um modelo gerencial simplificado, considere:

  • C: custo direto da entrega, líquido dos créditos recuperáveis já considerados.
  • v: encargos proporcionais que incidem sobre o mesmo preço-base.
  • m: margem de contribuição desejada sobre esse preço-base.
  • B: preço-base necessário.

A fórmula é:

B = C ÷ (1 − v − m)

Se o custo for R$ 6.800, os encargos proporcionais assumidos forem 12% e a margem desejada for 20%:

B = R$ 6.800 ÷ 0,68 = R$ 10.000.

Desse valor, R$ 6.800 cobrem os custos diretos e R$ 1.200 cobrem os encargos considerados. Restam R$ 2.000 de contribuição.

Essa fórmula não calcula legalmente IBS ou CBS. Só funciona sob as premissas indicadas, com bases consistentes e denominador positivo. Comissões sobre o total da nota, tributos com outras bases e cobranças fixas exigem adaptação. Os encargos de 12% deste modelo não incluem o tributo hipotético acrescido separadamente no exemplo a seguir.

E os R$ 2.000 ainda não são lucro líquido: precisam ajudar a pagar tudo o que ficou fora da conta.

“Mais tributos” e “com tudo incluído”: duas frases, dois resultados

Imagine, apenas para facilitar o raciocínio, um tributo hipotético de 10% cobrado por fora sobre um preço-base de R$ 10.000.

Os 10% são uma hipótese didática, não a alíquota de IBS e CBS de 2027.

Nesse modelo:

  • Preço-base: R$ 10.000.
  • Tributo hipotético: R$ 1.000.
  • Total da proposta: R$ 11.000.

Agora imagine que o cliente responda:

“Meu orçamento é dez mil. Com tudo.”

Se você aceitar esse teto, o preço-base precisará caber dentro dele:

R$ 10.000 ÷ 1,10 = R$ 9.090,91.

Mantendo os custos e os encargos proporcionais do exemplo anterior, a contribuição cai de R$ 2.000 para aproximadamente R$ 1.200.

Uma diferença de R$ 800.

Não houve erro de multiplicação. Houve uma condição comercial que precisava ser compreendida antes do “fechado”.

A proposta deve deixar claro quanto o cliente pagará e o que está incluído. Sua margem não pode depender de uma interpretação otimista.

Na apuração real, IBS, CBS e os demais tributos precisam ter suas bases e condições validadas separadamente. O exemplo acima isola um mecanismo de preço; não reproduz todas as incidências de uma operação real.

Crédito tributário não é dinheiro para contar duas vezes

Suponha uma compra de R$ 1.100 com R$ 100 de crédito cuja recuperação tenha sido validada.

Se você já registrou o custo econômico líquido de R$ 1.000, esse benefício já entrou na conta. Descontar outros R$ 100 como economia tributária seria fazer o mesmo dinheiro trabalhar duas vezes na planilha.

Na vida real, ele só aparece uma.

Você pode apresentar custos líquidos dos créditos ou mostrar desembolsos brutos e recuperação em linhas separadas. O importante é manter o critério e chegar ao mesmo resultado.

Também vale separar o crédito da sua empresa daquele que o cliente poderá aproveitar. O benefício do comprador pode ajudar na negociação, mas não paga diretamente o tributo do fornecedor.

Se essa dúvida apareceu no seu comercial, veja: meu cliente quer crédito de IBS e CBS: preciso sair do Simples?

O contrato dá resultado. Mas quem financia a espera?

Você entrega hoje. O cliente paga depois.

Entre uma coisa e outra, a folha vence, o fornecedor cobra e a vida segue sem consultar a data do seu recebimento.

Por isso, uma proposta pode apresentar margem positiva e ainda exigir capital de giro.

Na compra hipotética de R$ 1.100 com crédito recuperável de R$ 100, o desembolso inicial pode continuar sendo R$ 1.100. O benefício econômico não significa, necessariamente, dinheiro disponível naquele instante.

Projete as datas. Se a operação exigir R$ 20.000 antes de qualquer recebimento, a empresa precisará financiar esse intervalo. Se houver juros, eles entram na avaliação do resultado.

Sinal, faturamento por etapas e prazo de pagamento merecem lugar na negociação.

Nem todo bom negócio cabe no caixa do mês.

Antes de enviar a proposta, faça oito perguntas

  1. O escopo está claro ou estou prometendo mais do que consegui orçar?
  2. Qual regime tributário será aplicável na data da operação?
  3. Meus custos refletem a entrega real?
  4. Considerei algum crédito duas vezes?
  5. Cada tributo, comissão e taxa está sendo calculado sobre a base correta?
  6. Quanto sobra em reais e qual é a margem sobre a base escolhida?
  7. Quanto posso conceder de desconto sem ultrapassar o limite aprovado?
  8. Tenho caixa para cumprir o contrato até receber?

Se alguma resposta depender de “depois a gente vê”, talvez a proposta ainda precise de trabalho.

Para contratos já assinados, veja como revisar preços e contratos na reforma tributária. A análise econômica deve orientar a negociação, respeitando as condições contratuais.

Perguntas frequentes sobre preço, IBS e CBS

Preciso aumentar todos os preços em 2027?

Não há percentual único que responda por todas as operações. O preço deve ser reavaliado com custos, tratamento tributário, créditos e condições comerciais. O resultado pode ser diferente entre produtos ou contratos da mesma empresa.

Posso apenas acrescentar IBS e CBS ao preço atual?

Não sem reconstruir a conta. O preço atual pode embutir tributos que serão substituídos, e o novo cenário pode alterar créditos e bases. Acrescentar percentuais sem reconciliar esses componentes pode gerar duplicidade ou esconder custos.

A fórmula de margem calcula o imposto da nota?

Não. É um modelo gerencial de formação de preço, válido sob suas premissas. A apuração fiscal exige a classificação da operação e as regras aplicáveis a cada tributo.

Margem de 20% é o mesmo que acrescentar 20% ao custo?

Não. Um custo de R$ 100 acrescido de 20% gera preço de R$ 120 e diferença de R$ 20, equivalente a 16,67% do preço. Para uma margem de 20% sobre o preço, sem outros encargos, o valor seria R$ 125.

Uma simulação de regime tributário define meu preço?

Não sozinha. Ela fornece parte das informações. O preço também depende de custos, capacidade, mercado, prazo e margem. Uma comparação entre Simples e Lucro Presumido não substitui o estudo específico do Simples híbrido.

Seu preço precisa cuidar da empresa que você quer construir

Há uma satisfação legítima em fechar um contrato. Ver o cliente confiar, a equipe se movimentar, a empresa crescer.

Mas crescer também pede discernimento para reconhecer o que cada venda deixa.

Um preço bem calculado ajuda a pagar o trabalho de hoje e a preparar a entrega de amanhã. Sustenta a equipe, a qualidade e o compromisso assumido com o cliente.

Antes de enviar a próxima proposta, reserve alguns minutos para uma pergunta:

Depois de cumprir tudo o que prometi, o que fica para a minha empresa?

Essa resposta merece entrar na negociação.

No Meu Contador Online, você conta com tecnologia e um contador exclusivo. Fale com seu contador sempre que precisar e leve seus custos e propostas para validar as premissas tributárias.

Comece por uma comparação estimada entre Simples Nacional e Lucro Presumido. A ferramenta oferece um ponto de partida; não calcula o preço ideal nem substitui a análise específica de IBS/CBS e dos contratos.

Fonte e critérios dos exemplos

Ministério da Fazenda — adequação do Simples Nacional à reforma tributária do consumo, para a distinção entre recolhimento no Simples e regime regular. Os exemplos numéricos são exercícios próprios de formação de preço, com hipóteses explicitadas no texto.

Anderson Pavanello

Anderson Pavanello é fundador, sócio e gestor do Meu Contador Online, empresa que conquistou mais de 10 mil clientes em seus primeiros cinco anos de operação. Também é sócio-diretor do Meu Contador Prime e investidor nos mercados de capitais e imobiliário. Sua trajetória reúne conhecimentos que raramente caminham juntos. É engenheiro eletricista com ênfase em Telecomunicações pela FEI, contador pela Universidade Estácio de Sá e possui MBA em Gestão Estratégica e Econômica de Negócios pela Fundação Getulio Vargas. Também foi professor executivo de Gestão de Operações de Negócios nos cursos de MBA da FGV. Antes de empreender no setor contábil, trabalhou por mais de dez anos na Claro. Iniciou sua trajetória na empresa como desenvolvedor e, mais tarde, assumiu posições executivas, liderando projetos de integração entre Claro, NET e Embratel nas áreas de vendas e atendimento ao cliente. Também atuou com modelagem de processos e desenvolvimento de sistemas de informação, incluindo uma plataforma responsável por processar mais de 20 mil ativações de planos pré-pagos por dia. Foi essa combinação entre engenharia, tecnologia, gestão e contabilidade que ajudou Anderson a construir uma visão própria sobre o setor: a contabilidade não deve apenas registrar o que aconteceu, mas oferecer ao empresário clareza para decidir o que fazer a seguir. Pai de três filhas, praticante de kung fu e apaixonado por motovelocidade e automobilismo, participa de track days sempre que possível. No blog do Meu Contador Online, escreve sobre os desafios reais de empreender no Brasil, traduzindo temas contábeis, tributários e empresariais em informações claras, práticas e úteis para quem precisa tomar decisões todos os dias.

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