
A campanha teve alcance, o cliente elogiou a apresentação e o relatório veio cheio de setas para cima. No fim do mês, porém, o dono da agência abriu o banco e ficou olhando em silêncio. O sucesso estava em todos os slides. Só faltava aparecer no caixa.
Entre a verba de mídia, o pagamento do designer, a assinatura da ferramenta e aquela alteração “rapidinha”, o dinheiro entrou com festa e saiu sem se despedir.
A contabilidade para agências de marketing precisa separar a receita pelos serviços, os valores eventualmente movimentados por conta de clientes e os custos da operação. Também deve considerar as atividades efetivamente prestadas, a tributação aplicável, a documentação dos parceiros e o resultado de cada contrato.
É assim que a agência começa a responder a uma pergunta mais importante do que “quanto movimentamos?”: quanto o trabalho está deixando para sustentar a empresa e fazê-la crescer?
O primeiro cuidado: nem todo dinheiro movimentado é faturamento
Há diferenças entre o valor cobrado pela gestão da campanha e uma verba destinada a anúncios. A classificação depende de quem contrata, em nome de quem os documentos são emitidos e de como a operação acontece.
A Solução de Consulta Cosit nº 70/2016 distingue, para agências de publicidade no Simples, operações por conta do anunciante, documentadas em nome dele, de contratações realizadas pela própria agência. Na primeira hipótese, o mero repasse pode ficar fora da receita; a remuneração da agência permanece tributável. Na segunda, os valores cobrados integram sua receita, mesmo havendo custos com terceiros.
Por isso, escrever “reembolso” no contrato não resolve sozinho. Contrato, documentos e execução precisam contar a mesma história.
Exemplo: R$ 5 mil de gestão e R$ 20 mil de mídia
Considere duas situações hipotéticas:
| Modelo | Como funciona | O que observar |
|---|---|---|
| Cliente contrata e paga a mídia diretamente | O cliente paga R$ 20.000 à plataforma e R$ 5.000 à agência pela gestão | Os R$ 5.000 são a remuneração da agência. A contratação e os documentos da mídia devem corresponder ao cliente |
| Agência vende um pacote e contrata em nome próprio | A agência cobra R$ 25.000 e assume R$ 20.000 de contratação de mídia em seu nome | O custo não transforma automaticamente a receita em apenas R$ 5.000 |
Também pode existir trânsito de dinheiro do cliente pela agência em uma operação por conta e ordem dele. Esse desenho exige análise e documentação próprias; não basta receber R$ 25 mil, pagar R$ 20 mil e declarar somente a diferença.
Antes de vender o pacote, combine com o contador o fluxo de contratação, pagamento e documentação. Quando operacionalmente adequado, o pagamento direto pelo cliente facilita a separação. Ainda assim, o cadastro de cobrança e os documentos precisam estar corretos. Se houver fornecedor estrangeiro, avalie também os efeitos específicos da contratação internacional.
Quanto uma agência de marketing paga de imposto?
Não existe uma alíquota única para toda empresa que se apresenta como agência. Gestão de campanhas, publicidade, design, desenvolvimento de sites e outras entregas precisam ser identificados corretamente. O CNAE deve refletir a atividade; não funciona como um botão para escolher o menor imposto.
No Simples Nacional, publicidade está entre as atividades sujeitas ao fator R. Conforme a Resolução CGSN nº 140/2018, arts. 25 e 26, as receitas abrangidas são tributadas pelo Anexo III quando o fator R é igual ou superior a 28%, e pelo Anexo V quando é inferior.
O fator R relaciona a folha elegível, com os encargos previstos, à receita bruta total nos 12 meses anteriores. Há regras específicas para início de atividade. Remunerações de trabalho e pró-labore podem integrar o cálculo conforme os requisitos; notas de prestadores PJ não se transformam em folha da contratante, e distribuição de lucros não entra como salário.
Uma comparação inicial de DAS
Suponha uma agência já em operação, com receita acumulada de R$ 120.000 nos 12 meses anteriores, receita tributável de R$ 10.000 no mês e somente serviços sujeitos ao fator R. Considere operações internas, sem retenções ou outras particularidades que alterem a apuração. Usamos as primeiras faixas dos anexos da LC 123, no cenário de 2026.
| Item | Cenário A | Cenário B |
|---|---|---|
| Folha elegível acumulada considerada | R$ 36.000 | R$ 24.000 |
| Receita acumulada considerada | R$ 120.000 | R$ 120.000 |
| Fator R | 30% | 20% |
| Anexo aplicável ao serviço | III | V |
| Alíquota na primeira faixa | 6% | 15,5% |
| DAS sobre R$ 10.000 | R$ 600 | R$ 1.550 |
A diferença no DAS é de R$ 950. Isso não prova uma economia total de R$ 950. Os cenários têm folhas diferentes. Uma decisão sobre contratação ou pró-labore deve considerar remuneração, encargos, INSS, eventual IR e necessidade real do negócio.
As primeiras faixas vão até R$ 180 mil de receita acumulada para esse cálculo. Acima delas, usa-se a alíquota efetiva correspondente, e não simplesmente 6% ou 15,5% sobre qualquer faturamento. Para períodos de 2027 em diante, a simulação deve ser atualizada às regras aplicáveis.
Também vale comparar regimes quando o porte e a operação justificarem. Uma proposta tributária útil apresenta premissas e custo total; uma promessa genérica de “pagar só 6%” não explica sua agência.
Como organizar a emissão das notas de serviço?
A nota deve descrever a prestação efetiva e estar coerente com o contrato. Um texto que diz apenas “serviços diversos” oferece pouca ajuda para conferir a cobrança, a competência e a classificação tributária.
- Identifique o tomador: confira os dados da empresa contratante.
- Descreva a entrega: gestão de campanhas, criação, consultoria ou outro serviço real.
- Informe o período: vincule a cobrança à competência e ao contrato correspondente.
- Confira o código e as retenções: aplique o tratamento da operação, sem presumir uma regra única para todos os clientes.
- Separe os documentos de mídia: eles não substituem a nota da remuneração da agência.
Para ME e EPP do Simples, a orientação oficial de 29/10/2026 determina o Emissor Nacional para serviços de competência a partir de 1º de novembro de 2026. Competências anteriores, em municípios com emissor próprio, seguem o fluxo indicado para notas retroativas. A data de competência importa.
No Meu Contador Online, a emissão é feita pelo cliente, com orientação do contador. Se houver dificuldade no processo, veja o que conferir quando o CNPJ ainda não consegue emitir nota fiscal.
Freelancers e parceiros: o Pix não substitui o documento
A agência pode reunir redatores, designers, produtores e gestores de tráfego em projetos diferentes. Para cada contratação, mantenha escopo, preço, identificação do prestador, evidência da entrega e documento adequado.
Se o fornecedor é PJ, confira a nota, o tomador e a compatibilidade do serviço. Se é pessoa física, alinhe previamente com o contador os documentos, as retenções e as obrigações aplicáveis. A palavra “freelancer” não define o tratamento tributário nem resolve uma eventual relação de emprego.
Quando a agência contrata um parceiro para executar parte do serviço vendido por ela, o pagamento é um custo da operação. No Simples, esse custo não é automaticamente abatido da receita tributável. É diferente de uma contratação efetivamente feita por conta e em nome do anunciante.
O combinado fica mais seguro quando também prevê prazo, número de revisões, autorização de uso dos materiais e responsabilidade por despesas extras. Uma alteração pequena pode ser pequena no briefing e enorme na soma das horas.
Como descobrir se cada cliente deixa resultado?
Faturamento por cliente é o começo da análise. Para entender a margem, acompanhe também parceiros, ferramentas específicas e horas da equipe — inclusive as do sócio, quando ele participa da entrega.
Considere um contrato mensal de R$ 8.000, sem verba de mídia incluída. A tabela usa uma hipótese gerencial de tributos de 10%, não uma alíquota universal de agência:
| Item | Valor |
|---|---|
| Receita pelo serviço | R$ 8.000 |
| Tributos estimados na simulação: 10% | −R$ 800 |
| Parceiros contratados para o projeto | −R$ 2.000 |
| Ferramenta exclusiva do projeto | −R$ 300 |
| Equipe interna: 50 horas a R$ 60 de custo alocado | −R$ 3.000 |
| Saldo gerencial após os itens acima | R$ 1.900 |
Os R$ 1.900 ainda precisam ajudar a cobrir a estrutura não incluída, os gastos comerciais e os demais custos da agência. Não são, por si só, lucro líquido disponível para distribuição.
Se o trabalho consumir 80 horas, o custo interno alocado passa a R$ 4.800. O saldo cai para R$ 100, antes dos demais gastos. O contrato continua com os mesmos R$ 8 mil no cabeçalho. A rentabilidade mudou quase inteira.
Use uma base coerente para o custo da hora, considerando os gastos da equipe e sua capacidade produtiva. Ao consolidar os projetos, não conte novamente a mesma folha como se fosse uma segunda despesa. A alocação distribui um custo existente; não cria outro.
Esse acompanhamento ajuda a renegociar escopo, cobrar entregas adicionais e melhorar processos. Há clientes que precisam de uma campanha nova. Outros precisam, antes, de um contrato mais claro.
Uma rotina mensal que cabe na vida da agência
- Concilie os recebimentos: associe cada entrada ao cliente, à nota e à finalidade.
- Preste contas da mídia: relacione orçamento, pagamentos, comprovantes e saldo por anunciante, quando houver gestão desses valores.
- Organize parceiros: reúna contratos, notas, entregas e pagamentos.
- Confira a apuração: valide receitas, serviços, fator R quando aplicável e retenções.
- Compare horas e escopo: identifique contratos que consomem mais trabalho do que o previsto.
- Planeje o caixa: confronte os prazos dos clientes com os vencimentos dos fornecedores e da folha.
- Converse sobre os desvios: leve ao contador as diferenças e decisões que precisam de análise.
Combine quais relatórios o escritório entrega e quais controles a equipe da agência precisa alimentar. A contabilidade não consegue descobrir horas de retrabalho que ninguém registrou.
Perguntas frequentes sobre contabilidade para agências de marketing
Toda agência paga 6% no Simples?
Não. O cálculo depende das atividades, da receita acumulada e, quando exigido, do fator R, além das particularidades da operação. A alíquota inicial de um anexo não é uma promessa para todo CNPJ.
Posso descontar os freelancers antes de calcular o DAS?
Não apenas porque houve pagamento a terceiros. Subcontratações feitas pela agência para entregar seus próprios serviços representam custos, não uma dedução geral da receita do Simples.
Verba de anúncio pode passar pela conta da agência?
O trânsito financeiro precisa ser analisado junto da contratação e da documentação. Não use apenas o extrato para decidir o que é receita ou mero repasse. Organize o modelo antes de receber os valores.
A contabilidade mostra qual cliente dá mais lucro?
Ela pode apoiar a análise, mas precisa de dados gerenciais: horas, parceiros e gastos por projeto. Alinhe o relatório e seu nível de detalhe no escopo contratado. A DRE geral da agência não substitui automaticamente esse controle.
A agência também merece uma estratégia para crescer
Você ajuda outras empresas a encontrar sua voz, conquistar clientes e ocupar espaço. A sua agência merece a mesma atenção que recebe a marca mais importante da carteira.
Organizar os números não tira a criatividade do negócio. Dá condições para escolher projetos, remunerar melhor o trabalho e crescer sem depender de um novo contrato para resolver toda conta antiga.
No Meu Contador Online, você conta com contador exclusivo e tecnologia para apoiar sua organização contábil dentro do escopo contratado. Fale com seu contador sempre que precisar e leve para a conversa o modo como sua agência vende, contrata parceiros e movimenta a verba dos clientes.
Converse com o Meu Contador Online sobre a contabilidade da sua agência. Informe as atividades, o faturamento, a equipe e o fluxo de mídia. Esses dados permitem avaliar a operação concreta.
Uma boa ideia merece sair do papel. Uma boa agência merece continuar de pé depois que a campanha termina.
Anderson Diogenes Pavanello
Anderson Diogenes Pavanello é engenheiro eletricista pela FEI, contador pela Universidade Estácio de Sá e possui MBA em Gestão Estratégica e Econômica de Negócios pela FGV. É fundador, sócio e gestor do Meu Contador Online e Sócio-Diretor do Meu Contador Prime. Atuou por mais de dez anos como executivo na Claro, participando de projetos de integração entre Claro, NET e Embratel nas áreas de vendas, atendimento e operações. Foi professor executivo de Gestão de Operações na FGV e escreve sobre gestão, contabilidade, tributação e transformação digital para empresas.