
Inteligência artificial e trabalho: o que acontece quando uma máquina passa a executar aquilo que levou uma vida para aprendermos?
Antes de existir uma empresa, alguém aprendeu a fazer alguma coisa.
Aprendeu com as mãos, com os olhos, repetindo um gesto até que ele deixasse de parecer difícil. Aprendeu observando alguém mais experiente, errando uma medida, refazendo uma conta, escutando uma reclamação.
Quando o primeiro cliente chegou, encontrou um trabalho que já tinha uma história.
No contrato social, essa história não aparece.
Ali constam endereço, atividade, capital, nomes. Nenhum campo pergunta quem ensinou o ofício. Quantos anos foram necessários para aprender. De onde veio a coragem de transformar aquele conhecimento em sustento.
Uma empresa tem data de abertura. Seu começo costuma ser anterior.
Mas o que acontece quando aquilo que deu origem à empresa começa a ser feito por uma máquina? O que muda no negócio — e na pessoa que construiu sua vida em torno daquele saber?
Essa pergunta me acompanha quando penso no trabalho, na tecnologia e na nossa responsabilidade como empresários.
Também me aproxima de Trabalhadores, de Sebastião Salgado.
Trabalhadores, de Sebastião Salgado: um mundo em transformação
Na dedicatória que inspira esta reflexão, Salgado apresenta sua obra como homenagem aos trabalhadores, despedida de um mundo do trabalho manual que desaparece lentamente e tributo às pessoas que continuam trabalhando como há séculos.
Um mundo se despede. Outro permanece. Às vezes, os dois ocupam a mesma rua.
Há quem experimente uma ferramenta capaz de economizar horas. Há quem continue submetido a um esforço que já poderia ter sido aliviado. E há quem veja desaparecer justamente a atividade que lhe permitiu criar os filhos, conquistar autonomia e encontrar um lugar no mundo.
A partir dessa dedicatória, penso em uma transformação que vai além das ferramentas: a mudança na relação entre aquilo que uma pessoa sabe fazer e o valor que o mundo atribui a esse conhecimento.
As perguntas sobre inteligência artificial, propriedade e distribuição dos ganhos que desenvolvo aqui são uma reflexão minha, provocada pela obra. O desaparecimento de uma forma de trabalhar nos leva a perguntar também quem participa da forma de produzir que vem depois.
Para quem empreende, essa relação é muito íntima.
Muitas empresas começam com alguém ouvindo uma frase simples:
“Você faz isso tão bem. Por que não trabalha por conta própria?”
Quem diz talvez não perceba o tamanho da ideia que acabou de deixar na cabeça do outro.
Antes de empreender, alguém aprendeu um ofício
A costureira começa a receber encomendas. O mecânico procura um espaço para sua oficina. A cozinheira faz as contas para comprar um equipamento. O contador conquista os primeiros clientes.
Antes da empresa, existe um saber. E existe a esperança de que esse saber possa sustentar uma vida com mais autonomia.
Depois vêm as descobertas.
O serviço pode estar bem executado e o preço, errado. A agenda pode estar cheia e o dinheiro, curto. O faturamento cresce, mas as horas de descanso desaparecem.
Quem abriu o negócio continua trabalhando no ofício e acrescenta outras ocupações ao dia. Negocia, cobra, contrata, resolve um problema no banco e volta para terminar a entrega.
À noite, tenta entender por que um mês tão movimentado deixou tão pouco dinheiro.
Há uma passagem silenciosa entre saber fazer um trabalho e conseguir sustentar uma empresa. Nela, muita gente se sente menos preparada do que aparenta.
E o primeiro funcionário muda novamente a dimensão das coisas. Agora, outra pessoa também organiza a própria vida contando com a continuidade daquele negócio.
O empreendimento que nasceu de um conhecimento individual começa a carregar responsabilidades coletivas.
Mas esse caminho não está aberto da mesma maneira para todos. Saber exercer um ofício não garante dinheiro para comprar equipamentos, acesso a clientes ou condições de suportar meses de incerteza. Muitos trabalhadores ajudam empresas a existir sem se tornarem proprietários de nenhuma. Sua trajetória não vale menos por isso.
Celebrar quem conseguiu empreender exige lembrar também de quem não teve essa possibilidade. Caso contrário, corremos o risco de contar a história do trabalho apenas a partir daqueles que conseguiram transformar experiência em patrimônio.
Da tradição contábil à transformação tecnológica
Na minha família, essa história tem um ponto de partida concreto: meu pai, Maurílio, trabalha com contabilidade desde 1966.
Minha trajetória reuniu contabilidade, engenharia e tecnologia. Hoje, no Meu Contador Online, participo da transformação de um ofício que faz parte da nossa história familiar há seis décadas. Essa passagem também aparece na rotina da contabilidade digital, em que tecnologia e orientação profissional precisam trabalhar juntas.
Essa posição me coloca diante de uma pergunta que não é apenas teórica: como desenvolver novas formas de trabalhar e, ao mesmo tempo, reconhecer o conhecimento de quem nos trouxe até aqui?
É possível olhar para uma rotina antiga e perceber tudo o que poderia ser mais rápido. Mais difícil é enxergar, dentro dela, a experiência acumulada pelas pessoas.
Um procedimento pode estar ultrapassado. A pessoa que o executa pode conhecer problemas, clientes e particularidades que ainda não aprendemos a colocar em sistema algum.
Confundir essas duas coisas custa caro.
Essa história familiar também não me coloca fora da transformação. Como empresário que desenvolve e utiliza tecnologia, participo das decisões sobre investimento, produtividade e organização do trabalho. Preciso examinar seus efeitos sobre quem trabalha conosco, sobre nossos clientes e sobre o mercado em que atuamos. A pergunta alcança as minhas escolhas.
Inteligência artificial e trabalho: o que acontece com a experiência?
A inteligência artificial torna essa discussão ainda mais próxima.
Ela alcança tarefas de escritório, textos, documentos, análises e códigos. Para o pequeno empresário, abre possibilidades de organizar melhor a operação e experimentar recursos antes distantes de sua realidade.
Existe motivo para entusiasmo.
Também existe uma inquietação legítima.
A mesma pessoa que quer usar uma ferramenta para ganhar produtividade pode olhar para ela e pensar:
“Se isso agora pode ser feito em segundos, o que acontece com tudo o que levei anos para aprender?”
Essa pergunta envolve renda. Envolve também identidade.
Quando alguém diz “sou contador”, “sou programador” ou “sou costureira”, está contando algo sobre o lugar que ocupa no mundo. Sobre o que os outros procuram nela. Sobre uma competência que construiu e aprendeu a reconhecer como sua.
Por isso, “basta se reinventar” é uma resposta pequena para uma mudança tão grande.
Aprender exige tempo, orientação e espaço para errar. Exige suportar a sensação de voltar a ser iniciante depois de anos sendo a pessoa a quem os outros recorriam.
Se a empresa precisa dessa transformação, ela também precisa participar desse esforço.
Automação, experiência e oportunidades de trabalho
Há conhecimentos que aparecem com mais nitidez quando alguma coisa foge do esperado.
Um documento parece correto, mas alguém percebe uma ausência. Uma resposta está bem escrita, mas ignora a situação do cliente. Um número fecha, mas não faz sentido diante do que aconteceu na operação.
A experiência ajuda a reconhecer essas diferenças.
Isso não garante proteção permanente a nenhuma profissão. Haverá tarefas que perderão espaço, serviços que precisarão mudar e transições difíceis.
Mas exige cuidado antes de concluir que uma pessoa perdeu valor porque parte de sua rotina foi automatizada.
Alguém que passou anos transferindo informações entre sistemas pode conhecer profundamente as falhas da operação. O trabalho repetitivo ocupava seu tempo; não descrevia todo o seu conhecimento.
Essa experiência merece ser reconhecida. Mas seria confortável demais prometer que todos encontrarão uma nova função supervisionando máquinas. Ter conhecimento valioso não garante que exista uma vaga, que ela esteja acessível ou que remunere como antes.
A formação importa. Também importam o tempo disponível, as condições de aprendizagem e as oportunidades concretas depois dela. Uma transição pode produzir ganhos para uma empresa e perdas reais para algumas das pessoas que ajudaram a construí-la.
É nesse ponto que a pergunta sobre produtividade se torna uma pergunta sobre renda e poder de decisão.
Quem fica com os ganhos de produtividade?
Imaginemos um marceneiro e um braço robótico capazes de produzir peças semelhantes. A cena é uma hipótese para pensar a mudança, não um retrato de toda marcenaria. E um robô pode executar movimentos programados sem utilizar inteligência artificial: automação e IA não são sinônimos.
O marceneiro talvez nunca encontre o engenheiro que projetou o equipamento ou o programador que definiu seus movimentos. Em um sistema com IA, outras pessoas podem desenvolver o modelo e integrar suas funções à produção. Há trabalho em toda essa cadeia. Mas seus participantes não precisam se conhecer, compartilhar decisões ou receber os mesmos benefícios.
Quem domina o ofício, quem desenvolve a tecnologia e quem é proprietário do negócio podem ocupar posições diferentes. A máquina não precisa ter aprendido com aquele marceneiro para modificar o mercado em que ele ganha a vida.
O ponto de encontro entre eles pode ser apenas o preço que um cliente aceita pagar.
O trabalho muda de mãos. A renda pode seguir outro caminho.
Os ganhos de produtividade podem aparecer como preços menores, salários melhores, jornadas mais curtas, investimento ou lucro. Não existe uma regra automática que determine essa distribuição. Concorrência, propriedade, contratos, negociação e decisões de gestão influenciam quem participa do resultado.
Se uma tecnologia permitir que poucos fornecedores atendam um mercado muito maior, parte da renda poderá se concentrar em quem controla esses recursos. Se tornar ferramentas úteis acessíveis a pequenos negócios, poderá ampliar a capacidade de competir de quem antes estava em desvantagem. São possibilidades que precisamos examinar, não destinos que podemos anunciar de antemão.
Investir, desenvolver e assumir riscos também merecem remuneração. Reconhecer isso não encerra a pergunta sobre quem suporta o custo da mudança. O retorno de um investimento e a perda de renda de um trabalhador podem existir ao mesmo tempo.
Para o pequeno empreendedor, a situação pode ser especialmente ambígua. Ele ganha uma ferramenta e, ao mesmo tempo, passa a depender de um fornecedor, de suas condições e de seus preços. Pode produzir mais e ainda assim reter uma parcela menor do valor que ajuda a criar.
Por isso, precisamos perguntar tanto o que a tecnologia permite fazer quanto quem pode acessá-la, quem controla seu uso e quem tem condições de negociar.
O papel da contabilidade no futuro dos pequenos negócios
Na contabilidade, essas escolhas chegam até o cliente.
Por trás de uma pergunta sobre imposto pode existir o medo de cobrar um preço que torne o negócio inviável. Uma dúvida sobre contratação pode ser o primeiro sinal de que o empresário já não consegue trabalhar sozinho. Documentos atrasados podem revelar uma pessoa tentando cuidar de responsabilidades demais.
A tecnologia pode organizar informações e ajudar a perceber esses sinais. É preciso que alguém tenha condições de examiná-los e conversar sobre o que significam.
No Meu Contador Online, é nesse contexto que situamos o compromisso de que o cliente possa falar com seu contador sempre que precisar. Para conhecer esse modelo, veja como funciona a contabilidade online.
Uma resposta rápida tem valor. A clareza para tomar uma decisão também.
Esse compromisso precisa ser acompanhado de escolhas concretas: oferecer condições de aprendizagem durante o trabalho, ouvir quem conhece a operação, acompanhar a qualidade das entregas e discutir como os ganhos serão utilizados. Eficiência que se traduz apenas em mais cobrança deixa uma parte importante da conta fora do relatório.
Quem começa a empreender precisa compreender o que está acontecendo com sua empresa. Precisa distinguir movimento de resultado, crescimento de sobrecarga, dinheiro disponível de compromisso que ainda vai vencer.
Organizar as contas ajuda a dar continuidade ao trabalho que originou o negócio.
Um preço bem calculado permite remunerar o esforço. Uma reserva dá tempo para enfrentar uma dificuldade. Uma contratação planejada pode devolver ao fundador algumas horas de vida.
Essas coisas aparecem em números. Seus efeitos acontecem nas pessoas.
Empreender sem esquecer quem faz o trabalho
A homenagem ao trabalho também precisa reconhecer o direito de que ele seja menos pesado.
Um pai pode se orgulhar de seu ofício e desejar que os filhos não enfrentem o desgaste que enfrentou. Um empresário pode amar o negócio que construiu e querer que ele deixe de depender de sua exaustão.
Preservar uma história exige permitir que ela continue de outras formas.
Talvez seja essa uma das responsabilidades mais difíceis de quem empreende: mudar o que precisa mudar sem tratar o caminho percorrido como tempo perdido.
Volto, então, à pessoa que abriu a primeira porta.
Ela já sabia trabalhar. Ainda não sabia tudo o que precisaria aprender para manter aquela porta aberta.
Hoje, talvez esteja diante de uma tela, experimentando uma ferramenta nova. Pode encontrar nela a ajuda que desejou durante anos. Pode sentir medo. Pode sentir as duas coisas.
Talvez consiga transformar seu conhecimento em uma nova oportunidade. Talvez precise de apoio, de tempo ou de uma alternativa que ainda não existe. O futuro não chega como uma oportunidade igual para todos.
Por isso, a responsabilidade de quem empreende vai além de acompanhar a velocidade das ferramentas. Inclui examinar as condições em que as pessoas atravessam a mudança e as possibilidades que têm de participar dos seus resultados.
Não desejo preservar o cansaço, o risco ou a repetição apenas porque fazem parte de uma história. Quero que o trabalho possa ser melhor. Mas melhorar a produção e melhorar a vida de quem trabalha são conquistas que precisam ser avaliadas, cada uma, pelos seus efeitos.
Antes do lucro, alguém trabalhou.
Quando esse trabalho muda de mãos, quem participa do que vem depois?
Anderson Pavanello
Anderson Pavanello é fundador, sócio e gestor do Meu Contador Online, empresa que conquistou mais de 10 mil clientes em seus primeiros cinco anos de operação. Também é sócio-diretor do Meu Contador Prime e investidor nos mercados de capitais e imobiliário. Sua trajetória reúne conhecimentos que raramente caminham juntos. É engenheiro eletricista com ênfase em Telecomunicações pela FEI, contador pela Universidade Estácio de Sá e possui MBA em Gestão Estratégica e Econômica de Negócios pela Fundação Getulio Vargas. Também foi professor executivo de Gestão de Operações de Negócios nos cursos de MBA da FGV. Antes de empreender no setor contábil, trabalhou por mais de dez anos na Claro. Iniciou sua trajetória na empresa como desenvolvedor e, mais tarde, assumiu posições executivas, liderando projetos de integração entre Claro, NET e Embratel nas áreas de vendas e atendimento ao cliente. Também atuou com modelagem de processos e desenvolvimento de sistemas de informação, incluindo uma plataforma responsável por processar mais de 20 mil ativações de planos pré-pagos por dia. Foi essa combinação entre engenharia, tecnologia, gestão e contabilidade que ajudou Anderson a construir uma visão própria sobre o setor: a contabilidade não deve apenas registrar o que aconteceu, mas oferecer ao empresário clareza para decidir o que fazer a seguir. Pai de três filhas, praticante de kung fu e apaixonado por motovelocidade e automobilismo, participa de track days sempre que possível. No blog do Meu Contador Online, escreve sobre os desafios reais de empreender no Brasil, traduzindo temas contábeis, tributários e empresariais em informações claras, práticas e úteis para quem precisa tomar decisões todos os dias.