Premissa deste artigo: no Lucro Presumido, vamos fixar ISS em 2%.
Se você é médico plantonista e está começando a atuar como PJ, uma dúvida aparece logo no início: Médico plantonista: Simples Nacional ou Lucro Presumido?
A resposta não é “um é sempre melhor”. No seu cenário, a decisão costuma ficar bem objetiva porque o que manda no jogo é:
- Fator R (no Simples) — define se você fica no Anexo III (tende a ser mais leve) ou cai no Anexo V (tende a ser mais pesado);
- ISS do município (no Presumido) — aqui vamos travar em 2% para facilitar o comparativo;
- Pró-labore — que afeta o Fator R e também o INSS.
⚠️ Aviso rápido: este artigo é educativo e usa referências de alíquotas iniciais para explicar a lógica. Na prática, a simulação final pode variar por detalhes como retenções do tomador do serviço, forma de recebimento e eventuais ajustes de pró-labore.
1) Simples Nacional para médico plantonista: o que decide se ele fica bom ou ruim?
No Simples, o divisor de águas é o Fator R, que compara folha (inclui pró-labore e remunerações) com a receita bruta.
Regra prática:
- Se Fator R ≥ 28% → tendência de enquadramento no Anexo III (normalmente mais leve)
- Se Fator R < 28% → tendência de enquadramento no Anexo V (normalmente mais pesado)
E no começo da empresa? Nos primeiros meses, a apuração costuma ser proporcional (média do período), mas a lógica é a mesma: quanto mais sua “folha” representar do seu faturamento, maior a chance de alcançar o enquadramento mais favorável.
Médico plantonista: Simples Nacional ou Lucro Presumido? é uma pergunta crucial que muitos profissionais enfrentam ao iniciar sua carreira como pessoa jurídica.
2) Seu cenário: R$ 15.000/mês — qual pró-labore mínimo para buscar 28%?
Você informou um faturamento médio de R$ 15.000 por mês.
Cálculo do alvo (28%):
- Faturamento mensal: R$ 15.000
- Meta (28%): 15.000 × 0,28 = R$ 4.200
✅ Pró-labore mínimo-alvo: aproximadamente R$ 4.200/mês para tentar atingir Fator R ≥ 28% quando você não tem funcionários e sua “folha” é basicamente o pró-labore.
Dica prática: na rotina do plantonista, o “pró-labore para bater Fator R” precisa ser planejado com equilíbrio. Se você sobe pró-labore demais, aumenta INSS e pode aparecer IRRF. Se sobe pouco, não bate 28% e cai no Anexo V.
3) Custo do INSS desse pró-labore (R$ 4.200)
Vamos estimar o custo do INSS do pró-labore-alvo, usando a referência mais comum na prática contábil: INSS de 11% sobre o pró-labore (respeitando limites aplicáveis).
- Pró-labore: R$ 4.200
- INSS (11%): 4.200 × 0,11 = R$ 462/mês
📌 Importante: o INSS é uma contribuição previdenciária. No mês, é uma saída de caixa, mas em princípio é uma contribuição que o contribuinte pode receber no futuro na forma de aposentadoria e/ou benefícios previdenciários, conforme as regras vigentes.
4) Comparação no seu cenário (R$ 15.000/mês): Simples x Presumido (ISS 2%)
A seguir, vou comparar três situações para você enxergar o efeito do Fator R e do pró-labore:
4.1) Cenário A — Simples no Anexo V (não bate 28%)
Quando o plantonista não consegue atingir 28% de Fator R, ele tende a cair no Anexo V. Como referência didática, o Anexo V tem alíquota inicial frequentemente citada em torno de 15,5% na primeira faixa.
- DAS estimado: 15.000 × 15,5% = R$ 2.325/mês
4.2) Cenário B — Simples no Anexo III (bate 28% com pró-labore de R$ 4.200)
Se você consegue Fator R ≥ 28%, a tendência é migrar para o Anexo III. Como referência didática, o Anexo III é frequentemente citado com alíquota inicial de 6% na primeira faixa.
- DAS estimado: 15.000 × 6% = R$ 900/mês
- INSS do pró-labore (R$ 4.200): R$ 462/mês
Total comparável (DAS + INSS): R$ 1.362/mês
✅ Economia potencial vs Anexo V (apenas nesses itens):
R$ 2.325 − R$ 1.362 = R$ 963/mês
Leitura correta: ao ajustar pró-labore para bater o Fator R, você paga INSS (contribuição previdenciária) e, em troca, destrava um Simples com alíquota menor. A decisão boa é a que maximiza o líquido, não apenas a alíquota.
4.3) Cenário C — Lucro Presumido (ISS fixo em 2%)
No Lucro Presumido, usamos uma referência prática comum de composição (federal + IRPJ/CSLL) e somamos o ISS fixado em 2% (premissa do artigo). Com isso, a carga estimada fica:
- Base de referência (federal + IRPJ/CSLL): 11,33%
- ISS (fixo): 2%
- Total estimado: 13,33%
- Impostos estimados: 15.000 × 13,33% = R$ 1.999,50/mês
5) Resultado final lado a lado (R$ 15.000/mês)
- Simples – Anexo V (referência 15,5%): R$ 2.325/mês
- Simples – Anexo III (referência 6%) + INSS pró-labore R$ 4.200: R$ 1.362/mês
- Lucro Presumido (ISS 2%; referência total 13,33%): R$ 1.999,50/mês
Interpretação direta:
- Se você cair no Anexo V, o Lucro Presumido (ISS 2%) tende a ser melhor do que o Simples “caro”.
- Se você conseguir bater 28% e ir para o Anexo III, o Simples tende a ficar muito melhor — mesmo somando o INSS do pró-labore.
6) O que esta comparação não inclui (para ficar honesto e correto)
Para manter a conta didática, nós comparamos:
- o DAS no Simples (Anexo III vs Anexo V);
- os impostos estimados do Presumido com ISS fixo em 2%;
- o INSS do pró-labore no cenário de Fator R (R$ 4.200 → R$ 462/mês).
Na vida real, pode existir também:
- IRRF sobre pró-labore (dependendo do valor e da estrutura);
- retenções quando o tomador do serviço (hospital/clínica) retém tributos;
- diferenças de rotina e obrigações acessórias.
Mesmo assim, para um plantonista iniciante em torno de R$ 15 mil/mês, esta comparação já entrega um norte muito confiável de qual direção tende a ser melhor.
7) Quando eu tenderia a recomendar cada regime (para plantonista iniciante)
Eu tenderia a recomendar Simples quando…
- você topa manter pró-labore realista (no seu cenário, perto de R$ 4.200/mês) para buscar Fator R ≥ 28%;
- você quer simplicidade no recolhimento (DAS) e previsibilidade;
- você quer manter a contribuição ao INSS como parte do seu planejamento previdenciário.
Eu tenderia a recomendar Lucro Presumido quando…
- você não quer (ou não consegue) manter pró-labore/folha suficiente para bater 28%;
- sua PJ cairia naturalmente no Anexo V;
- você prefere uma estrutura previsível, com o ISS travado (neste exemplo, 2%).
8) Checklist rápido (copie e cole)
- ✅ Meu faturamento está por volta de R$ 15.000/mês
- ✅ Quero tentar Anexo III → pró-labore alvo ≈ R$ 4.200/mês
- ✅ INSS estimado do pró-labore alvo (11%) ≈ R$ 462/mês (contribuição previdenciária)
- ✅ Se eu cair no Anexo V → o Presumido (ISS 2%) tende a competir melhor
- ✅ Se eu bater Fator R → o Simples (Anexo III) tende a ficar bem melhor
Conclusão
Para um médico plantonista iniciante com média de R$ 15.000/mês, a conclusão costuma ser objetiva:
- Simples Nacional é ótimo se você consegue Fator R ≥ 28% (indo para Anexo III);
- Se não conseguir e cair no Anexo V, o Lucro Presumido (ISS 2%) tende a ser mais racional.
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Anderson Diogenes Pavanello
Anderson Diogenes Pavanello é engenheiro eletricista pela FEI, contador pela Universidade Estácio de Sá e tem MBA em Gestão e Estratégica e Econômica de Negócios pela FGV. Conquistou mais de 10.000 clientes nos primeiros 5 anos de operação do MEU CONTADOR ONLINE, empresa da qual é sócio fundador e CEO. É professor executivo da disciplina de Gestão de Operação de Negócios no MBA da Fundação Getúlio Vargas. Atuou por mais de uma década como executivo na Claro, onde coordenou projetos de integração entre as empresas Claro, Net e Embratel focado nos processos de vendas e atendimento ao cliente. É especialista em arquitetura e integração de sistemas de informação, gestão de processos e pessoas.